
PROPOSTA
No Carnaval de 2026 o GRCES X-9 Paulistana apresenta toda a mitologia Guarani em torno da crença da existência de uma terra sem males chamada Yvy Mara Ei. A ideia é apresentar essa história em dois momentos distintos: primeiro em sua origem, com a fúria divina se abatendo sobre o povo guarani e iniciando a busca por uma terra onde não houvesse dor e nem morte; depois, contamos a história moderna em que os guaranis aprendem com os erros do passado, mas agora são castigados não pelo seu criador e sim pelo invasor que destruiu as suas terras. A partir dessa linha narrativa, concluímos o enredo propondo uma reflexão que nos sugere escutar os ensinamentos do povo guarani para que a gente preserve a natureza e escape de um novo apocalipse que está por chegar.
SINOPSE
Ouvi contar os Guaranis...
Que um dia o grande criador Nhanderu, muito decepcionado, se aborreceu com sua própria criação.
Ao perceber a essência do ser tão enfraquecida diante da maldade do homem contra o homem e, sobretudo, dos malefícios que ele causava à sagrada natureza, decidiu que era hora de encerrar a malsucedida aventura humana.
Então, enviou seus espíritos para comunicar ao pajé Guirapoty que não haveria mais dia nem noite após aquela. Ordenou que fossem realizados rituais de canto e dança antes do fim.
Dessa forma, os guaranis invadiram a madrugada executando suas práticas de canto e dança em homenagem ao criador. Os mais velhos iniciaram a cerimônia bebendo água de aroeira, para que suas vozes ressoassem com maior potência. Em seguida, um coro feminino, acompanhado pela afinação dos takuapus (instrumentos das mulheres guaranis feitos de bambu cujo som ressoa com batidas sobre o chão), temperou melodicamente o rito conduzido pelo rezador.
Quando o canto e a dança chegaram ao fim, ouviu-se um grande estrondo. Era Nhanderu retirando um dos esteios que sustentavam a terra, permitindo que um incêndio devastador se abatesse sobre todos os lugares e coisas.
Sobreviveram apenas o pajé Guirapoty e sua família. Eles procuraram um lugar onde a vida pudesse recomeçar e construíram uma casa à beira-mar. Foi então que, depois do fogo, chegou a água: uma grande enchente se fez para lavar a destruição das chamas de Nhanderu. A água pouco a pouco foi tomando a morada de Guirapoty forçando a família a se abrigar sobre o telhado. Mas a água seguia avançando e, quando já quase abatia os últimos sobreviventes, eles foram resgatados por pássaros sagrados e transportados uma terra sem males: Yvy Marã Ei. Guirapoty e família se tornaram guardiões dessa terra.
Para os guaranis, a "terra sem mal" é uma aldeia sagrada existente em uma ilha distante, na direção do nascer do sol. É lá que residem Nhanderu, sua esposa Nhandecy, os ancestrais guaranis e os poderosos pajés - como Guirapoty.
Nesse lugar vivem o tangará, o sabiá, a arara e diversas aves migratórias, além de muitas outras espécies de animais; as plantas nascem incessantemente; não há doença nem morte; homens e mulheres trabalham em irrestrita cooperação e não cometem maldades contra ninguém; a natureza é imaculada e não corre perigo; os habitantes celebram festas repletas de danças, comidas e bebidas; o lazer é a única ordem.
Enquanto a vida transcorria em Yvy Mara Ei, a humanidade recomeçou após o fogo que pôs fim à geração anterior. Conhecedores dos fatores que motivaram a fúria de Nhanderu, os guaranis nos contam que aprenderam a prezar pelo respeito à natureza, pela exploração não-predatória dos recursos naturais e pela vida em harmonia pelo bem-estar da comunidade.
E assim foi, de fato, por vários séculos em um território de vasta extensão (que ocupava áreas hoje correspondentes ao Brasil, Paraguai, argentina e Bolívia).
Até que a história, infelizmente, se repetiu.
Dessa vez, os guaranis não foram castigados por Nhanderu por terem cuidado mal da terra em que habitavam. O castigo veio do homem branco que escravizou, perseguiu e matou. Aquele que não permitiu que os povos originários professassem sua própria fé ou falassem a própria língua.
Os guaranis novamente perderam suas terras para as chamas. Agora, num processo mais lento e doloroso. Toda a dignidade foi queimada pela ganância dos colonizadores que se intitularam donos da terra.
Assim a nação guarani foi forçada a repetir Guirapoty e caminhar em busca de um lugar onde houvesse paz. Esse povo então se espalhou por diferentes pontos da américa do sul: grupos distintos em busca de lugares diferentes onde pudessem encontrar a terra sem males. Cada nova chegada representava um sonho de alcançar Yvy Marã Ei.
Até hoje, habita em cada coração guarani a crença de que Nhanderu reservou, aqui mesmo neste plano, uma terra sem males. É a profecia de um futuro de paz, fartura e prosperidade. Um futuro muito distante do presente que temos.
Cabe a nós interromper esse processo de destruição. Devemos deixar em paz o que restou da Amazônia e da mata atlântica e vislumbrar um futuro de grandes mudanças culturais. É nossa missão permitir que os guaranis e todos os demais povos originários vivam em harmonia.
Assim, o brasil terá a oportunidade de se tornar a Yvy Marã Ei.
Os ensinamentos originários, enraizados na conexão profunda com a terra e na harmonia com a natureza, têm o poder de transformar a maneira como a humanidade vê e vive no mundo. Independentemente da etnia, esses saberes ancestrais nos convidam a refletir sobre nossa relação com o homem e com o meio ambiente, ressaltando a importância do respeito, da solidariedade e da preservação.
Ao abraçarmos esses ensinamentos, podemos reverter práticas destrutivas e cultivar uma nova ética de cuidado e responsabilidade. Essa mudança de paradigma não é apenas uma questão cultural; é uma necessidade urgente para garantir um futuro sustentável e harmonioso para todas as etnias e gerações que virão. E também para nós.
Só assim escaparemos de uma nova fúria de Nhanderu.
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