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JUSTIFICATIVA
Para o carnaval 2027, a Colorado do Brás levará para a avenida o enredo Ojuara: O Homem Que Desafiou O Diabo.
Ojuara nasce na literatura brasileira como protagonista do romance “As Pelejas de Ojuara”, de Nei Leandro de Castro, obra que mergulha no imaginário popular nordestino para construir a trajetória de um herói ao mesmo tempo cômico, erótico, fantástico e profundamente humano.
Mais tarde, esse universo ganha nova forma no cinema com o filme “O Homem que Desafiou o Diabo”, dirigido por Moacyr Góes, que adapta a jornada de Zé Araújo e transforma sua aventura em uma narrativa visual marcada pelo humor, pela fantasia, pelo desejo, pela oralidade e pelo enfrentamento do impossível.
Escolher Ojuara como enredo é afirmar a força da imaginação popular como território de liberdade. Mais do que narrar a aventura de um homem pelo sertão, a escola propõe celebrar a capacidade do povo brasileiro de transformar dor em riso, humilhação em coragem, medo em festa e destino em invenção.
Zé Araújo, antes caixeiro-viajante, boêmio e homem comum, torna-se Ojuara quando já não aceita permanecer preso à vergonha, ao mando e à vida estreita que tentavam lhe impor.
Sua metamorfose é, portanto, um gesto de libertação: Araújo vira-se pelo avesso para renascer como personagem de lenda e encontrar o lugar com que ele sempre sonhou: São Saruê, onde ele vai ser quem sempre quis, a liberdade.
A força do enredo está nesse universo em que o sertão não é apenas um lugar geográfico, mas um território mítico, literário e carnavalesco. Nele, a realidade se mistura ao impossível: cobras simbólicas, Pavão Misterioso, Pretos Velhos, cantadores, velhos-demônios, cabarés, coronéis, monstros, moedas malditas, diabos de estrada e a utopia final de São Saruê compõem uma narrativa de transformação, assombro e encantamento.
Levar Ojuara à avenida é celebrar a capacidade popular de virar a dor pelo avesso. Sua história não é um retrato regionalista, mas uma fábula brasileira sobre liberdade: o homem humilhado que se reinventa, enfrenta o poder, rir do Diabo e segue em busca de uma terra de fartura e sonho. No Carnaval, Ojuara desfila porque sua lenda traduz a própria essência da festa: transformar medo em gargalhada, miséria em imaginação e destino em apoteose.
SINOPSE
Digo aos senhores que Zé Araújo era homem de estrada, sujeito de fala mansa, mala na mão, cortes de pano colorido debaixo do braço, desejo aceso e viola sempre pronta para um repente ou um lundu. Caixeiro-viajante, boêmio da pior espécie e sedutor de primeira linha, conhecia as veredas do sertão como a palma da mão, fosse pelo burburinho das feiras, pelo cheiro de querosene dos armazéns ou pelo riso frouxo e perfumado dos cabarés. Naqueles tempos, Zé vivia de colher as histórias que o povo contava para espantar as moscas e as agruras da seca.
Mas o destino é um bicho traiçoeiro. Foi só Zé plantar os pés em Jardim dos Cajacós para ter sua liberdade cerceada por um casamento arranjado a contragosto, pelo olhar severo do sogro e pelo cheiro azedo do balcão de venda. A humilhação pública virou o seu pão de cada dia. No começo de sua lenda, uma cobra se enroscou em seu corpo; era o ciúme, a rotina mofada e a vergonha apertando a garganta do infeliz. Mas o riso zombeteiro dos outros e o peso daquela vida domesticada já avisavam: aquele couro velho já não lhe servia. Quando o calo apertou demais e os demônios da sua mente lhe alertaram, Zé Araújo chutou o balcão, quebrou as amarras e resolveu se virar pelo avesso. Quando a vida lhe deu o bote, ele trocou de pele, virou bicho e renasceu...
OJUARA
A partir daquele tombo, a estrada deixou de ser caminho de comércio e virou travessia de destino. Ojuara cismou que haveria de alcançar São Saruê, a terra prometida dos sertanejos, onde a fartura mora de portas abertas e o impossível se acomoda à mesa como visita antiga. Logo de saída, o Pavão Misterioso abriu suas asas num clarão de sonho e aço, cruzando os céus para anunciar que a viagem havia deixado o mundo dos homens e entrado nas terras do mito e da maravilha.
E o sertão, meus amigos, abriu-se diante dele como um livro falado. Pelas margens da jornada surgiam assombrações, prodígios e avisos. No meio da fumaça apareceu um Preto Velho, sabedor das coisas deste e do outro mundo, para lhe contar que a liberdade tem preço alto e que até o próprio Cão haveria de atravessar seu caminho. E não deu outra. A peleja com o Diabo parecia já estar escrita antes mesmo de acontecer. Tudo indicava que aquele caboclo nascera para desafiar o próprio senhor das trevas.
Se fosse no pino do meio-dia ou na escuridão da madrugada, o Inferno sempre encontrava um jeito de mostrar suas armadilhas. Mas Ojuara não venceria por santidade nem por obediência. Sua força vinha de outro lugar: da astúcia, da irreverência e daquela alma brasileira que ri quando o medo quer se fazer grande. Ojuara, porém, não enfrentou somente o Capiroto. Como contava o velho Zé Pretinho, o caboclo derrotou também as sombras que carregava dentro de si e mamou na teta da onça. Os cantadores de viola trataram logo de aumentar seus feitos, botando nos versos três palmos de exagero para que a verdade virasse encanto. Nas noites de fogueira, as trevas ganhavam dentes e língua. Falava-se de almas penadas, pactos antigos e da sela encantada que um dia apareceu para servir ao fiel cavalo do caboclo. Quem seguia viagem agora era Ojuara: homem sem dono, sem freio e sem medo de virar lenda na boca do povo.
Suas histórias logo se misturaram às dos cangaceiros famosos que cruzavam o sertão. Não apenas pelas valentias, mas também pelos amores e pelas sem-vergonhices, porque nenhum homem vive só de luta e assombração. Ojuara enrabichou-se por uma trapezista de circo, dessas que fazem o coração tropeçar mais do que os pés. Depois surgiu Genifer, flor dos cabarés, iluminada por lamparinas e espelhos gastos. Aparição de amor e desejo que fez até as pernas do valente tremerem, provando que o homem livre também procura pouso, afago e remédio para as feridas que a estrada abre.
E muitas vezes era justamente nos cabarés que o cabra encontrava esses remédios. Ali, pecado, solidão, música e cachaça sentavam-se todos na mesma mesa, como velhos conhecidos.
O caboclo travou pelejas sem contar contra adversários de toda sorte. Enfrentou valentões do dobro de sua altura, verdadeiros Golias sertanejos que espalhavam medo por onde passavam. Bateu de frente com assombrações capazes de fazer o mais valente dos homens chorar escondido. Já não era mais o Araújo de antigamente. Era Abaporujucaiba, homem-bicho, cavaleiro de couro, feito de poeira, verso, coragem e cachaça.
Ojuara levantou sua bandeira do avesso: sem rei para servir, sem patrão para obedecer e sem medo para se ajoelhar.
Pelo caminho encontrou os velhos Chico Rabelê, Miguel Sá e Pedro Bala, figuras misteriosas, meio sábias, meio demoníacas, que atiçaram ao mesmo tempo a coragem e a desconfiança do viajante. Com eles aprendeu que o medo, quando vira pilhéria ou cantoria, deixa de mandar nos homens e passa a servi-los.
Noutra feita, precisou enfrentar o temido Boi Mandingueiro, criatura encantada, mais velha que muitas serras e mais braba que seca de sete anos. O bicho surgia entre a poeira e o espinheiro com os olhos faiscando como brasas acesas, espalhando medo por onde passava.
Também chegou ao castelo da Mãe de Pantanha, assombração devoradora de homens e senhora de encantamentos perigosos, sempre cercada pelo Corcunda Lombroso e outras criaturas grotescas que davam ao mundo o tom debochado de um carnaval sem fim.
Como se os perigos do além não bastassem, surgiram também os donos da terra. Coronéis como Rusevelt e seus asseclas, armados de cercas, títulos, medalhas e arrogâncias. Mas contra a empáfia dos poderosos, Ojuara não levava apenas o facão, levava a insolência de quem já perdera o medo da vergonha e das consequências.
O sertão podia ser seco, espinhoso e rachado pela falta de chuva, mas era também terra de alegria, imaginação e cultura popular. Como registraram Câmara Cascudo e tantos outros pesquisadores das tradições nordestinas, aquele mundo era feito de folclore, memória e encantamento. De Acari a Mossoró, de Caicó às terras do Seridó, aparecia sorridente a face mais verdadeira e preciosa do povo nordestino. Viva o Rio Grande do Norte!
Ao fim de tantas jornadas, Ojuara saiu vencedor. Venceu apesar da maldição das moedas de ouro. Venceu como vence o brasileiro teimoso que se recusa a se entregar. Venceu porque tinha o riso frouxo e a alma desabusada. Riu do medo, caçoou do Demônio e deu uma gargalhada tão grande que o próprio Cão pareceu diminuir de tamanho até bater em retirada.
Ojuara não andou tanto para morrer no Inferno ou para virar soberano de homens devotos. Sua bússola apontava para a grande promessa: o país de São Saruê! No fim da linha, as portas daquela utopia se escancararam.
Ali, as pedras são feitas de pura rapadura, a água brota em flores, os rios correm caudalosos cheios de leite e mel, as árvores dão doces no lugar de frutos e as casas são de puro açúcar. À fome lá é coisa sem nome.
Ojuara não entrou ali com coroa na cabeça, pois nunca foi chegado a tronos; entrou como o andarilho que venceu a própria sina, o caboclo que virou bicho para continuar sendo homem. São Saruê foi a grande revelação de que o mundo pode, sim, ser reinventado pela coragem, pela palavra e pela mais deslavada fantasia. E assim, logrando o Diabo e atravessando a noite, a lenda de Ojuara finalmente descansou, sem nunca deixar de cantar nos folhetos deste sertão de Deus.
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