
JUSTIFICATIVA
O poder da oralidade é a forma ancestral que guiou, e ainda guia as tradições dos povos africanos.
Energizadas como marcas da caminhada das etnias que nasceram onde a vida teve seu berço, as palavras dos mais variados idiomas formaram a base histórica, cultural, mística e religiosa dessa gente.
Tomando como inspiração tais propriedades do poder da oralidade, o G.R.C.S.E.S. Acadêmicos de Casa Verde, orgulhosamente apresenta seu enredo: “Nguzu: Bendita é a Voz do Quilombo Casa Verde”.
O kimbundu estreita seus laços com a língua portuguesa durante a colonização portuguesa de Angola, e principalmente na província de Luanda. Deste encontro entre Angola e o Brasil no período escravocrata de nossa história, a dor e a humilhação de tantos ergueu uma nação, porém,criou laços culturais que hoje são celebrados no brilho da fantasia do nosso carnaval.
“Nguzu”, é uma palavra originária do dialeto Kimbundu - uma das línguas faladas pela etnia Bantu – que surgiu no noroeste de Angola. “Nguzu”, traduzido para o português, revela-se em nosso idioma como a palavra “Força”.
Então, buscamos nas nossas raízes, a força para começar a construir a nossa história. Exaltaremos neste carnaval a presença africana no bairro da Casa Verde, sublimando em forma de poética e carnavalesca a presença negra, aqui, onde nasce nos tempos modernos um novo quilombo, refúgio para arte e talento de todos os sambistas.
EXPLANAÇÃO HISTÓRICA
“[...] A vida semeando a paz
Em busca da nossa justiça
Cultura traz
O samba que então te convida [...]”
Exaltamos em forma de Carnaval a presença negra em nossas raízes culturais, para então reafirmamos o nosso papel de sambista, fazendo assim a louvação com dignidade a todos que nos proporcionaram esse momento que hoje se transforma em Carnaval.
Historicamente, aponta-se que mais de 75% dos africanos trazidos ao Brasil durante o período da diáspora negra foram da etnia Bantu. Como celebradores desta história não nos cabe ceder espaço maior a tristeza, e sim, sermos pilar para sustentar a bagagem cultural, folclórica e religiosa que a escravidão não foi capaz de sepultar.
Por estas paragens, nomeados Campos de Piratininga, evocamos as vozes ancestrais para rememorar os tempos da Fazenda Casa Verde, de onde em 1795 já se exportava o café plantados por negras mãos. Daqui o “Ouro Verde” impulsionou a economia do Brasil, transformando São Paulo em uma máquina expansiva de progresso, tal qual as locomotivas que de tudo transportava.
Para vencer as adversidades impostas pela opressão, buscavam força, o sagrado “Nguzu”, que era reforçado no culto das suas divindades, os inkisses. Louvavam, com devoção, N’Dandalunda - Divindade das águas doces, e propiciadora da ligação dos homens com os deuses – para que permitisse que os deuses os tornassem fortes perante as adversidades.
Venceram sim, e afirmaram cultura, em todas as formas possíveis. Deram pitadas de tempero, misturaram sabores nas cozinhas. Dos passos de umbigadas e batucadas fizeram folguedos. Mesclaram, sincretizaram a fé. Em comunhão, a mistura miscigenou brancos, negros e índios.
Glórias aos que em luta nos fizeram mais fortes. Quilombolas tal qual Zumbi dos Palmares, Dandara, Ganga Zumba e Aqualtune. Glórias a todos aqueles que resistiram e contribuíram para o grito de liberdade.
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