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SOBRE O ENREDO
Este enredo nasce do desejo de reafirmar a história do Brasil sob o olhar daquelas que durante séculos tiveram suas vozes apagadas pelo silêncio da opressão. A negritude brasileira escreveu páginas de luta, coragem e resistência que muitas vezes foram embranquecidas pelo tempo ou narradas sem o devido reconhecimento de seus verdadeiros protagonistas. Entre tantas memórias ocultadas, mulheres negras tiveram seus nomes arrancados da história, mesmo sendo alicerces de sobrevivência, liderança e liberdade.
É por isso que a Nenê de Vila Matilde volta seus olhos para o “Quilombo dos Palmares” e revela aquilo que o tempo tentou esconder: o protagonismo das mulheres palmarinas. Reacendendo a chama feminina que alimentou o maior território de liberdade já erguido por negros em solo brasileiro resgatando do passado os feitos de Acotirene, Aqualtune e Dandara.
Este enredo é um gesto poético de afirmação histórica ao devolver a essas mulheres o lugar de honra que sempre lhes pertenceu. Ao resgatar a memória dessas heroínas, o quilombo azul e branco também encontra suas herdeiras contemporâneas nas mulheres negras que seguem transformando luta e resistência em esperança. Mulheres que ainda enfrentam o racismo e a desigualdade reivindicando seus espaços com coragem e dignidade. Elas continuam sendo terra fértil e semente de futuro, escudo diante da injustiça e espada contra o apagamento de suas histórias.
O povo matildense exalta a ancestralidade feminina de Palmares e reafirma sua missão de ser a voz da negritude no Carnaval de São Paulo. E assim honramos nossas raízes transformando o samba em instrumento de consciência, reverência e resistência através do enredo “Mulheres de Palmares: A Liberdade Tem Rosto de Mulher”.
SINOPSE
Eis o cortejo da águia guerreira que outra vez prepara seu voo magistral.
Neste palco sagrado, onde o samba eterniza tantas histórias, chegou o momento de romper com séculos esquecimento. Ao solfejo dos tambores, o silêncio rompido evoca a presença de três mulheres, conforme a linha de sucessão, memórias da nossa gente, ventres da verdade, faces da liberdade.
A história começa como encantamento na terra mãe...
Entre cantos e celebrações, uma menina nasce amparada pela ancestralidade. Acotirene. Nome de raiz que não se arranca. Nome de mulher destinada a transformar dor em caminho.
Nas noites quentes d’África, Acotirene se sentava ao lado dos mais velhos para ouvir histórias que não precisavam de papel para permanecer eternas. Aprendeu cedo que uma mulher negra carrega o mundo no ventre e nos ombros. Aprendeu que o medo existe, mas não governa quem conhece a força dos ancestrais. Enquanto os sábios revelavam memórias sob o lume das fogueiras, ela entendia que liberdade não é presente dado por ninguém: é semente teimosa que nasce até no chão mais seco.
Quando Samba Kalunga chamou seu nome no fundo das águas, Acotirene ouviu e se entregou ao seu destino. Partiu levando consigo as vozes de sua gente guardadas dentro do peito. No mar, atravessou noites de ausência e silêncio. Mas havia dentro dela uma chama que não se apagava. Era a presença das mulheres que vieram antes, mulheres que morreram sem morrer, porque deixaram suas forças habitando as filhas que resistiram. Quando seus pés tocaram o solo brasileiro, Acotirene compreendeu que o destino a havia dado uma tarefa: transformar sobrevivência em liberdade. E onde havia tristeza, ela semearia esperança. Onde havia medo, ela inspiraria coragem.
Rasgou a mata como quem abre o próprio destino com as mãos. O reduto real , mas tarde conhecido como Mocambo dos Macacos se fez morada. A terra tornou-se abrigo. E Palmares nasceu da força, da luta e da insistência. Nasceu de quem recusou o grilhão. Nasceu da mulher que tinha a coragem nas veias. Palmares ergueu-se como corpo vivo da liberdade negra. E Acotirene fez-se raiz profunda daquele chão, guardando sonhos como quem protege sementes para o amanhã.
Quando o nome de Acotirene virou memória espalhada pelo vento, outra mulher levantou-se sobre o mesmo chão sagrado. Aqualtune trouxea dignidade de uma rainha arrancada de sua terra. Sua pele de ébano brilhava como ouro banhado pelas águas de Dandalunda. Tentaram aprisionar seu corpo, mas não domaram sua grandeza. Porque há mulheres que, mesmo acorrentadas, continuam livres na alma. E Aqualtune nasceu liberta feito água de rio que corre para o mar.
Ela reuniu os seus, quebrou correntes, atravessou caminhos difíceis e encontrou em Palmares a continuação da esperança. Sua voz tinha firmeza das árvore sagradas. Sua presença se fez liderança não porque buscava poder, mas porque sabia cuidar da vida coletiva. A realeza africana renascia em solo brasileiro pelas mãos da negra mulher.
Aqualtune tinha a sagacidade e conhecimento para reunir e organizar homens para formarem exércitos potentes para batalhas. Também foi colo. Cuidou para que nenhuma infância crescesseórfã de afeto. Suas mãos criaram abayomis como quem costura amor em pedaços de pano. Conhecia ervas, raízes e rezas. Curava feridas do corpo e do espírito. Moldava barro como quem molda consciências libertas. Parteira de vidas. Guardiã de nascimentos.Mulher daquelas que sustentam o mundo sem precisar de homem algum.
De seu ventre cresceu uma linhagem feita para desafiar o tempo. Aqualtune tornou-se mãe de Ganga Zumba e avó de Zumbi, clarões de resistência erguidos nas veredas de Palmares. E quando os céus se fecharam em guerra, outra mulher surgiu atravessando a ira das batalhas. Dandara era a própria ventania de Matamba, borboleta de fogo, a liberdade enrubescida, brasa que cortava os ares.
Dandara não nasceu para ser sombra de ninguém. Seu corpo carregava a firmeza das mulheres que aprenderam a transformar dor em combate. Era presença de guerra. Fazia armas com as próprias mãos e transformava inteligência em defesa do quilombo. Na capoeira, seu corpo tramava ospassosda libertação.Em cadamovimento pareciadizer que mulher negra nenhuma nasceu para o silêncio. Dandara também conhecia os segredos da terra. Plantava alimento como quem planta futuro. Caminhava pela mata ouvindo o rumor das folhas e os conselhos invisíveis dos ancestrais. Sabia seguir rastros, preparar armadilhas e lançar flechas certeiras. Entre o arco e a semente, sustentava a vida de Palmares. Havia delicadeza em sua força eforça em sua delicadeza. Como tantas mulheres negras, carregava o mundo inteiro sem deixar o corpo tombar.
Quando a violência tentou cercá-la, Dandara recusou uma vida sustentada sobre a escravidão de outros negros. Ela sabia que liberdade pela metade era prisão. E diante da captura, escolheu permanecer dona de si até o fim. Seu nome atravessou o tempo como chama acesa na memória do povo preto. Dandara tornou-se indomável ventania.
Acotirene, Aqualtune e Dandara. São elas as mulheres que transformaram o próprio corpo em território de resistência. Mulheres que ensinaram que liberdade também tem ventre, tem colo, lágrima e fúria. Mulheres negras que fizeram da própria existência um gesto de continuidade para o seu povo.
Palmares não acabou! O mocambo de Alagoas ainda existe nas mulheres negras de hoje que ocupam espaços nas escolas, universidades, terreiros, parlamentos e sambas. Vive nas pretas retintas que sustentam casas inteiras. Nas escritoras que transformam memória em palavra. Nas malungas, mães do Brasil, que seguem insistindo na vida mesmo quando o mundo lhes oferece ausência.
Cada mulher negra que reivindica sua voz carrega um pedaço das matriarcas palmarinas dentro de si. Quando enfrentam o racismo, quando decidem não se calar, quando transformam luto em luta. É assim que elas continuam escrevendo Palmares no presente. Porque quilombo é um corpo coletivo que guarda o futuro. E emocionada, a quilombola Nenê de Vila Matilde, reverencia as herdeiras da resistência!
A liberdade tem corpo, voz e coragem!
A liberdade tem um rosto que o tempo não apaga, nem a história silencia.
A liberdade tem rosto de mulher... e ela é preta!
Liberdade hoje! Liberdade agora e para todo o sempre! Axé
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