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G.R.C.S.E.S. IMPÉRIO DE CASA VERDE - CARNAVAL 2027
Enredo: Sob o Céu do Interior, Brilha o Sonho Caipira: Jaguariúna, a Capital Country do Brasil

O Grêmio Recreativo
Autor: Roberto Vilaronga

Dizem que as águas do Jaguari não correm — elas contam. Contam das alegrias, dos estorvos da vida e dos sonhos que o tempo só cultivou. Eu fui um desses nascido ali, na beirada do rio, ouvindo o canto das correntezas como quem escuta conselho de mãe. Aprendi que o rio tem idioma próprio.

Ele fala, ele vê, ele guarda e guia. Quando a vida me deixava moquiado, bastava sentar-se no barranco e deixar que o som da água me endireitasse o rumo.

O Jaguari sempre foi meu companheiro de prosa muda — uma oração líquida correndo entre as pedras.

E, às vezes, no lusco-fusco, surgia ela: A onça preta encantada, bonita de arrepiar. Ninguém sabe se é bicho ou encantamento. Só sei que quando ela passa, o silêncio respeita, o coração esquenta e até o vento se aquieta. Dizem que cruzar seu olhar é ganhar coragem de fiótão — e eu acredito. A força dela e das águas sempre empurram meu destino pra frente. O rio me criou. Levou embora meus medos de piazito e trouxe de volta sonho grande.

Como disse Manoel de Barros: “Eu queria aprender o idioma das águas.”

E aprendi. Aprendi que sorte se faz de correnteza e que quem nasce nas margens do Jaguari carrega no peito um pedaço de rio.

Quem anuncia o novo dia é o galo — valente, apressado, o primeiro a acordá o mundo. Ele canta grosso, rasgando o silêncio da madrugada, como quem diz: “Vamo simbora que a vida num espera!”

E o sol vem... escorrendo devagarinho por trás dos morros, dourando a terra, espantando o sereno. Os pássaros respondem num coro bonito: sabiá, canário-da-terra, coleirinha, trinca-ferro... Parece até que o céu se abre só para escutar. O cheiro da lenha queimando invade a cozinha, e o pão assado na hora faz a casa inteira sorrir.

A vida é simples: café coado no coador de pano, viola ponteando no terreiro, tropeiro seguindo para lida, poeira subindo atrás dos cavalos. E a lida preenche o coração do caipira, o milagre de ver a colheita florescer. Quando o dia finda, o povo se ajeita pro fervo da roça. Tem forfé, tem furundunço, tem bico-livre. Os casais dão aquela sarrada de banda no salão — uns parcouseados, outros só namorandinho. A viola orna com o rio, e o rio orna com a lua.

E ao fundo, emoldurando meu lugar, a estação de trem é ponto de chegadas e partidas. Cada apito parece um suspiro do destino — uns vão, outros voltam, outros só deixam saudade. E os pássaros fazem festa nos fios, como se cantassem despedidas e reencontros.

Como cantou Tião Carreiro e Pardinho: “Nóis é criado na roça, Com o pé no chão batido, E o coração amarrado No lugar onde foi nascido.”

E é isso mesmo: o caipira nasce amarrado à terra — e feliz por isso. Toda devoção nasce da terra e sobe para o céu que nem névoa nas manhãs frias. As festas juninas celebram São João, Santo Antônio e São Pedro — fogueira alta, bandeirola tremulando, quentão esquentando alma. A marujada corta as estradas, levando cantoria e esperança. E a cavalaria Antoniana em Jaguariúna é uma das maiores manifestações de fé e tradição sertaneja e reforça nossa devoção.

O povo se arruma bonito, os chapéus batem sol e as rédeas brilham feito promessa antiga. O povo pede aos anjos que levem seus pedidos até Santa Maria, padroeira da cidade. E lá na praça central, a Catedral de Santa Maria se ergue linda, espetada contra o azul do firmamento. Seus vitrais derramam cores sobre o chão de pedra, como se o próprio rio tivesse mergulhado dentro da igreja. Os sinos ficam, o vento sopra, e eu juro que as águas respondem lá longe, fazendo seu rezo de correnteza...

Renato Teixeira já dizia: “Sou caipira, Pirapora, sou de Deus e de ninguém.”

E eu sinto isso no peito: A fé do caipira num é conversa fiada — é raiz, é chão, é destino. E nos meus sonhos mais vívidos, o rodeio, ah, o rodeio... Pra muito forasteiro é só festa, mas pra quem nasceu aqui em Jaguariúna é coisa de fé, de raiz e de teimosia boa.

Desde piazito, eu ficava na cerca da arena, o coração estourando no peito, vendo os peões tudo erguidá no lombo dos touros. E eu pensava: “Um dia, vai sê eu em lá também... Um dia vai sê eu ali no meio da poeira e da glória.” E esse sonho veio de longe...

Lá da terra antiga, passou por rei e cavaleiro, cruzou oceano, virou festa, inspirou coragem no México, Estados Unidos... até chegar aqui, no nosso chão, se enraizando como alma do povo brasileiro sertanejo e interiorano. Hoje tem locutor, tem show, tem palhaço, tem poeira levantando alto e o povo berrando até perder a voz. Teve noite que me sentei na beira do barranco, só o luar e o som das correntezas.

Lá longe, vi o brilho dos sinos da Santa Maria. Senti que até a onça preta me espiava de isgueio, como quem benze o destino de um fiótão teimoso. O touro saltou, eu agarrei firme e deixei a alma montar comigo. Nesse instante, não era só eu — era o povo, era o rio, era o encanto das águas e o manto de Santa Maria me cobrindo feito correnteza azul.

Milionário e José Rico já cantaram: “Nesta longa estrada da vida Vou correndo e não posso parar...”

E é isso: ser campeão num é vaidade — é destino. É carregar a alma do povo, a coragem das águas e a luz de Santa Maria correndo nas veias. Hoje, quando volto para a beira do rio, fico de boa, meio lagarteando, lembrando de tudo. E no escuro da noite, de vez em quando, vejo ela... A onça preta, passando de farfanho entre as sombras. Aí eu só sorrio e digo baixinho: — Tá tudo certo, cumpadi... nóis venceu!


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